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Viola caipira atravessa gerações e celebra os 120 anos do legado de Raul Torres
Data celebra o instrumento símbolo da cultura caipira, os 120 anos de Raul Torres e a nova geração que mantém viva essa tradição.
Por JORNALISMO EDUCADORA
Publicado em 15/07/2026 10:45
CULTURA
Foto gerada por inteligência artificial

Da Redação

O mês de julho reúne duas datas que ajudam a dimensionar a importância da música caipira na formação cultural brasileira. No dia 11, foram celebrados os 120 anos do nascimento de Raul Torres, cantor e compositor que se tornou uma das figuras centrais da primeira geração profissional do gênero. Dois dias depois, em 13 de julho, o país comemorou o Dia Nacional da Música e Viola Caipira, dedicado à preservação do instrumento, dos artistas e das manifestações culturais ligadas à vida no campo.

As celebrações aproximam dois personagens fundamentais de momentos diferentes da mesma história. Cornélio Pires, homenageado pela data nacional, abriu espaço para que cantadores do interior chegassem aos discos e aos palcos urbanos. Raul Torres, por sua vez, esteve entre os artistas que ampliaram aquele caminho, construindo uma obra que transitou pelas modas de viola, toadas, cateretês, emboladas, sambas, jongos, batucadas e ritmos de influência paraguaia.

Mais de nove décadas depois das primeiras gravações comerciais da música caipira, uma nova geração continua utilizando a viola para interpretar clássicos, compor novas canções e alcançar o público por meio de festivais, programas de televisão, plataformas digitais e redes sociais. O formato mudou, mas permanecem elementos essenciais: as cordas em pares, o canto em duas vozes, a narrativa sobre o cotidiano, a memória familiar e a ligação afetiva com o interior.

Data nacional foi criada por lei

Embora seja frequentemente chamado apenas de Dia Nacional da Viola Caipira, o nome oficial da celebração é Dia Nacional da Música e Viola Caipira. A data foi instituída pela Lei Federal nº 14.472, sancionada em 6 de dezembro de 2022, e passou a ser comemorada anualmente em 13 de julho.

A legislação teve origem em uma proposta apresentada na Câmara dos Deputados e posteriormente aprovada pelo Senado. A escolha do dia não foi aleatória: 13 de julho é a data de nascimento de Cornélio Pires, nascido em 1884, em Tietê, no interior paulista. Jornalista, escritor, folclorista, produtor cultural e estudioso do modo de falar e viver do caipira, ele teve papel decisivo na transformação daquela expressão comunitária em uma manifestação conhecida nacionalmente.

Cornélio percorreu cidades e áreas rurais recolhendo histórias, anedotas, vocabulários, cantos e costumes. Além de publicar mais de vinte livros, organizou grupos de artistas populares e promoveu apresentações em teatros e outros espaços urbanos, em uma época na qual o caipira era frequentemente representado de forma caricatural ou depreciativa.

Seu passo mais importante na história fonográfica aconteceu em 1929. Diante da resistência inicial da indústria, Cornélio financiou uma série especial de discos pela Columbia. A primeira tiragem, com rótulos vermelhos, reuniu causos, desafios, cururus, cateretês e modas de viola. O sucesso comercial provocou novas prensagens e incentivou outras gravadoras a contratar cantores e duplas do interior.

Entre as gravações daquele período estava “Jorginho do Sertão”, interpretada por Mariano e Caçula e considerada uma das primeiras modas de viola registradas comercialmente no país. A partir daquele movimento, o repertório que circulava principalmente em festas religiosas, encontros familiares, mutirões, pousos de folia e rodas comunitárias passou a chegar às casas por meio dos discos e, pouco depois, das emissoras de rádio.

Um instrumento português transformado pelo Brasil

A viola caipira descende das violas de mão portuguesas, instrumentos de cordas dedilhadas que chegaram ao território brasileiro durante o período colonial. Em Portugal, diferentes regiões desenvolveram modelos próprios, como as violas braguesa, amarantina, toeira, beiroa e campaniça. Transportadas nas navegações, essas violas foram incorporadas ao cotidiano da colônia e, ao longo dos séculos, ganharam novas construções, afinações, técnicas e funções sociais.

Durante aproximadamente três séculos, a viola esteve entre os principais instrumentos de acompanhamento dos cantadores, inclusive em ambientes urbanos. A expansão do violão de seis cordas, especialmente a partir do século XIX, contribuiu para que ela perdesse espaço nas cidades e permanecesse mais concentrada nas regiões interioranas.

Foi justamente no campo que o instrumento passou a acompanhar folias de Reis e do Divino, festas de São Gonçalo, catiras, cateretês, cururus, cantorias religiosas, desafios e narrativas transmitidas oralmente. Em cada região, surgiram modos particulares de construir, afinar e tocar.

A viola caipira mais conhecida atualmente possui dez cordas metálicas distribuídas em cinco pares, também chamados de ordens. Existem variações com doze cordas e modelos regionais com características próprias. Diferentemente do violão, cujas cordas costumam ser tocadas individualmente, as cordas duplas da viola produzem uma sonoridade mais metálica, brilhante e cheia de ressonâncias.

Também não existe uma única afinação. Cebolão em Mi, Cebolão em Ré, Rio Abaixo, Rio Acima, Boiadeira, Natural e Cana-Verde estão entre as denominações encontradas em diferentes tradições. Essa diversidade permite que o instrumento acompanhe canções, execute ritmos marcados ou assuma papel solista, com ponteios, introduções e peças instrumentais.

Em Minas Gerais, uma pesquisa conduzida pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico identificou 1.543 violeiros e violeiras e 112 construtores distribuídos por 480 municípios. O levantamento integra o registro dos Saberes, Linguagens e Expressões Musicais das Violas como patrimônio cultural imaterial mineiro e demonstra que a viola não é apenas um objeto sonoro: ela articula memória, convivência comunitária, religiosidade, artesanato e transmissão de conhecimento.

Raul Torres: 120 anos de um pioneiro

Raul Montes Torres nasceu em 11 de julho de 1906, em Botucatu, no interior de São Paulo. Filho de imigrantes espanhóis, começou a cantar modas de viola em festas e reuniões com amigos. Quando decidiu buscar uma carreira artística, mudou-se para a capital paulista, onde conciliou a música com diferentes trabalhos.

Entre as ocupações exercidas, foi cocheiro na região da Estação da Luz e trabalhou no transporte de lenha da Estrada de Ferro Sorocabana. Paralelamente, cantava em bares, circos, cabarés e outros espaços de entretenimento popular. Nesse período, também teve contato com a família de Inezita Barroso e foi apontado como uma das influências que aproximaram a futura cantora e pesquisadora da música sertaneja.

A trajetória profissional começou em 1927, na Rádio Educadora de São Paulo, onde Raul apresentava modas de viola. Sua formação, no entanto, nunca ficou restrita ao repertório caipira. Impressionado com grupos nordestinos que se apresentavam na capital, integrou os Turunas Paulistas e passou a explorar emboladas e outros ritmos.

Essa abertura seria uma das marcas de sua carreira. Raul Torres foi um artista profundamente ligado ao sertão, mas também atento à circulação cultural das grandes cidades e às músicas de outras regiões do Brasil e da América do Sul.

Em 1929, realizou suas primeiras gravações pela Parlophon. No disco estavam a embolada “Jacaré no Caminho”, parceria com Atílio Grani, e o samba-canção “Olhos de Morena”, composição de Raul. Nos anos seguintes, formou conjuntos, excursionou pelo interior e gravou por diferentes selos.

Também participou da série organizada por Cornélio Pires usando o pseudônimo Bico Doce. Essa presença coloca Raul Torres na transição entre os artistas populares revelados pelo movimento de Cornélio e a geração que se consolidaria profissionalmente no rádio e nas grandes gravadoras.

Encontro com João Pacífico gerou clássicos

Em 1933, Raul Torres conheceu João Pacífico, compositor nascido em Cordeirópolis. O encontro resultou em uma das parcerias mais importantes da música caipira.

João Pacífico desenvolveu uma forma narrativa que ficou conhecida como toada histórica, na qual trechos declamados introduziam ou conduziam a história antes da parte cantada. Raul tinha experiência como intérprete, compositor e homem de rádio; Pacífico possuía forte capacidade de construir personagens e narrativas. Dessa combinação nasceram obras que atravessaram gerações.

Entre as parcerias estão “Cabocla Tereza”, “Pingo d’Água”, “Chico Mulato”, “Seu João Nogueira” e “No Mourão da Porteira”. Essas composições ajudaram a consolidar a narrativa longa como um dos elementos mais reconhecíveis da música sertaneja tradicional.

Em “Cabocla Tereza”, a paisagem rural funciona como cenário para uma história trágica. A obra se tornou um dos exemplos mais conhecidos da canção narrativa sertaneja e recebeu numerosas regravações. Vista atualmente, sua narrativa também permite discussões críticas sobre a forma como a violência contra a mulher era retratada e naturalizada em parte do cancioneiro popular do século XX.

“Pingo d’Água”, por outro lado, transformou a falta de água, a seca e a esperança da chuva em matéria poética. “Chico Mulato” desenvolveu uma história de abandono, sofrimento e morte, enquanto “No Mourão da Porteira” explorou imagens que se tornariam símbolos recorrentes do repertório rural.

As músicas não se limitavam a registrar paisagens. Elas organizavam a memória coletiva em personagens, tragédias, romances, conselhos e acontecimentos que podiam ser compreendidos mesmo por quem nunca havia vivido no campo.

Raul Torres e Serrinha

A partir de 1937, Raul formou dupla com o sobrinho Antenor Serra, conhecido artisticamente como Serrinha. A parceria gravou aproximadamente 50 discos de 78 rotações até o começo da década de 1940.

Foi nesse período que Raul ampliou sua presença nas gravadoras e no rádio. Em 1938, lançou “Saudades de Matão”, parceria com Jorge Galati, obra que se transformou em um dos clássicos de seu repertório. Também vieram gravações como “Moda da Pinga” e “Papagaio Louro”.

Raul também organizou formações maiores, como Raul Torres e Seu Conjunto e Raul Torres e Sua Embaixada. Nessas experiências, combinava instrumentos e repertórios de diferentes origens, demonstrando que a divisão rígida entre música rural e música urbana não explicava completamente sua produção.

Mesmo quando cantava o sertão, Raul dialogava com o carnaval, com o choro, com a música nordestina e com sonoridades presentes nas rádios da época. A batucada paulista “A Cuíca Está Roncando”, por exemplo, tornou-se popular no carnaval de 1935.

Torres e Florêncio e a consolidação da dupla caipira

Em meados da década de 1940, Raul Torres passou a cantar com João Batista Pinto, o Florêncio, com quem já havia realizado gravações anteriormente. A formação Torres e Florêncio tornou-se uma das mais importantes da história do gênero.

Florêncio se destacava pelo trabalho instrumental na viola, enquanto Raul assumia papel central na seleção do repertório, na composição e na interpretação. A dupla gravou mais de cem músicas e ajudou a fixar um modelo baseado no encontro de duas vozes, viola caipira e violão.

Entre os maiores sucessos está “Moda da Mula Preta”, lançada pela Victor em 1945. A composição passou a integrar o repertório de numerosos artistas e chegou a ser gravada por Luiz Gonzaga em 1948, demonstrando como a obra de Raul circulava para além do universo das duplas caipiras.

Torres e Florêncio também gravaram toadas, modas de viola, guarânias, rasqueados e canções bem-humoradas. Em muitas obras, o sertão aparece como espaço de trabalho, deslocamento, saudade, conflito e pertencimento — não apenas como uma paisagem idealizada.

Raul Torres ainda teve papel importante na incorporação da guarânia paraguaia ao repertório sertanejo brasileiro. Ele utilizava a expressão “rasqueado em estilo paraguaio”, aproximando a canção caipira das sonoridades que circulavam pelas áreas de fronteira. Décadas depois, guarânias e rasqueados se tornariam parte essencial da música sertaneja, especialmente nas regiões Centro-Oeste e Sudeste.

Uma obra muito maior que alguns sucessos

Reduzir Raul Torres a “Cabocla Tereza” ou “Moda da Mula Preta” seria ignorar a amplitude de sua produção. Ao longo da carreira, ele gravou mais de 200 discos e foi autor ou parceiro em aproximadamente 350 composições, segundo o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.

Seu catálogo reúne modas de viola, toadas, cateretês, emboladas, choros, sambas-canção, marchas, cocos, jongos, maracatus, milongas, guarânias e batucadas. Essa variedade revela um artista formado em um momento no qual as fronteiras entre os gêneros ainda estavam sendo construídas pelas gravadoras e pelo rádio.

Raul também abriu espaço para novos compositores. Em 1944, por exemplo, gravou com Florêncio “Moda das Flores”, primeira composição de José Fortuna registrada em disco. Fortuna se tornaria um dos autores mais produtivos do sertanejo, responsável por centenas de canções e versões.

O compositor morreu em São Paulo em 12 de julho de 1970, apenas um dia depois de completar 64 anos. Seu nome permanece ligado à geração que profissionalizou a música caipira sem romper completamente com a oralidade, os ritmos comunitários e o modo narrativo herdado das rodas de viola.

Nova geração assume a responsabilidade de continuar a história

A permanência da música caipira não depende apenas da reedição de discos antigos. Ela está diretamente ligada à formação de novos violeiros, cantores, compositores, professores, arranjadores e produtores capazes de compreender a tradição e, ao mesmo tempo, dialogar com o público de seu tempo.

A nova geração não constitui um movimento único. Alguns artistas adotam repertório, vestimentas, instrumentação e canto muito próximos das duplas antigas. Outros aproximam a viola da música instrumental, do pop, do rock, da música latino-americana ou de produções contemporâneas. Há ainda grupos que trabalham harmonias vocais mais elaboradas e formações com três ou quatro integrantes.

O ambiente digital também alterou a forma de circulação. Artistas que antes dependeriam exclusivamente de programas de rádio, gravadoras e festivais conseguem hoje divulgar vídeos, apresentar raridades, conversar com pesquisadores e alcançar ouvintes em diferentes estados.

Nathan Violeiro

Natural de São Bernardo do Campo e ligado artisticamente à região de São João de Iracema, no Noroeste Paulista, Nathan Violeiro atua como violeiro, cantor, compositor, produtor musical, arranjador e instrumentista. Sua trajetória reúne apresentações de repertório tradicional, participações em festivais, trabalho com orquestra de violeiros e experiências instrumentais.

Em 2023, foi um dos homenageados na sexta edição do Prêmio Inezita Barroso, concedido pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo a pessoas e grupos que contribuem para a preservação e a divulgação da cultura caipira. Na apresentação oficial da premiação, Nathan foi descrito como violeiro, cantor, compositor, produtor musical, arranjador e auxiliar de regência da orquestra de violeiros de sua cidade.

O artista também participou das atividades do concurso de viola do Revelando SP, iniciativa estadual voltada às manifestações culturais paulistas, e mantém registros audiovisuais de apresentações, entrevistas e interpretações de clássicos. Entre os materiais disponíveis estão músicas do repertório de Tião Carreiro, participações com outros cantores e peças instrumentais.

Um dos aspectos de seu trabalho é a tentativa de apresentar a viola fora de uma única moldura. Ao lado das modas tradicionais, Nathan publica arranjos e experimentos com músicas de outros gêneros, mostrando que o instrumento pode preservar sua identidade sonora mesmo quando dialoga com repertórios contemporâneos. Sua atuação como músico e produtor reforça uma característica crescente da nova geração: o próprio artista passa a cuidar dos arranjos, das gravações e da divulgação do trabalho.

Lizandra e Victória

As irmãs Lizandra e Victória, de Nova Odessa, no interior de São Paulo, iniciaram a trajetória da dupla em 2019. A formação segue um desenho tradicional: uma das artistas toca viola caipira, enquanto a outra utiliza o violão, com as duas dividindo as vozes.

O repertório percorre clássicos e gravações menos conhecidas do cancioneiro caipira, além de composições próprias. Entre as referências declaradas pelas artistas estão duplas femininas como Leyde e Laura, As Galvão e Irmãs Barbosa, além das violeiras Adriana Farias e Juliana Andrade e do cantor João Mulato.

A dupla já se apresentou em eventos como as festas do Peão de Barretos e de Americana e no Encontro de Violeiros e Catireiros Espanta Abeia, em Cosmópolis. Também se tornou presença recorrente em programas da TV Aparecida, interpretando repertórios ligados a João Mulato e Douradinho e outros nomes históricos.

A presença das irmãs também é significativa por ampliar a participação feminina em um universo que, durante décadas, foi divulgado principalmente por duplas masculinas. A viola sempre teve tocadoras e cantadoras, mas muitas delas permaneceram fora dos grandes registros fonográficos. A atuação de artistas jovens ajuda a tornar essa história mais visível.

Os Altaneiros

Os Altaneiros representam outro formato de renovação. Apresentado atualmente como quarteto, o grupo é formado por Vinícius Henrique, Enzo Franco, Charles Davi e Murilo Souza. O trabalho combina harmonias vocais, repertório sertanejo e arranjos construídos com diferentes instrumentos.

O projeto passou por mudanças de formação. Em 2024, foi divulgado como trio e lançou o álbum “Sim”. Posteriormente, passou a atuar como quarteto, reunindo integrantes que já possuíam experiências individuais e em outras duplas. Essa evolução demonstra como os novos grupos têm buscado alternativas ao padrão fixo da dupla sertaneja.

O repertório dos Altaneiros inclui releituras de clássicos e composições próprias, com referências a Tião Carreiro e Pardinho, Ronaldo Viola, Matogrosso e Mathias e outros representantes da música sertaneja. Em apresentações televisivas, o grupo é descrito como uma formação que mantém a essência do cancioneiro, mas utiliza uma abordagem contemporânea nos arranjos e nas divisões vocais.

Kalebe e Gabriel

A dupla divulgada oficialmente como Kalebe e Gabriel — com o primeiro nome também aparecendo como Kallebe em perfis pessoais — está entre os projetos recentes que ganharam projeção por meio de concursos e redes sociais.

Naturais de Piracicaba, os artistas formaram a dupla no fim de 2024. Em abril de 2025, quando tinham 16 e 23 anos, venceram o primeiro Concurso de Viola Caipira do Ribeirão Rodeo Music, superando outros competidores em apresentações avaliadas por jurados e pelo público. Como prêmio, receberam uma quantia em dinheiro, instrumentos promocionais e participação em produção televisiva.

Kalebe e Gabriel também haviam vencido, em 2024, o Festival de Viola Tião Venâncio e Lucas Donizeti, realizado em Gonçalves, Minas Gerais. No ano seguinte, retornaram ao evento para uma apresentação especial.

A dupla se apresenta como defensora da música sertaneja tradicional e lançou o projeto “Patrimônio de Carreiro”. Em 2026, participou do programa Terra da Padroeira, da TV Aparecida, levando modas de viola ao palco nacional.

Kauã Viola e Ricardo Amaro

Também ligados ao interior paulista, Kauã Viola e Ricardo Amaro formam uma dupla de Campinas voltada ao repertório das décadas de 1950 e 1960. Em apresentação divulgada pela TV Aparecida em 2025, os artistas tinham 19 e 18 anos.

A formação utiliza viola caipira, violão e canto em duas vozes, resgatando uma sonoridade anterior à expansão dos grandes arranjos eletrificados do sertanejo. O repertório inclui clássicos e pot-pourris de duplas históricas, com apresentações em programas de televisão, eventos e encontros dedicados à viola.

A dupla já apareceu em diferentes edições do Terra da Padroeira e do Aparecida Sertaneja. A recorrência dessas participações indica a existência de um público interessado não apenas nas músicas mais conhecidas, mas também em artistas jovens capazes de reproduzir técnicas de canto, ponteio e acompanhamento associadas às primeiras gerações do gênero.

Zé Caboclo e Caboclinho

Formada por dois amigos, Zé Caboclo e Caboclinho é uma das duplas mais recentes desse movimento. Em março de 2026, quando participaram do quadro “Memória Sertaneja”, da TV Aparecida, Zé Caboclo tinha 18 anos e Caboclinho, 19.

O projeto ganhou visibilidade inicialmente pelas redes sociais. A apresentação mantém o formato clássico das duplas caipiras: viola, vozes em dueto, repertório tradicional e nomes artísticos que remetem diretamente ao universo rural.

Além das interpretações de clássicos, a dupla passou a disponibilizar gravações próprias, como “Meu Rincão”, “Saudade de Araraquara” e “Boiadeiro Feliz”. Os lançamentos estão publicados no canal oficial do projeto e nas plataformas digitais.

Em maio de 2026, os jovens também participaram de uma edição especial do Terra da Padroeira dedicada ao Dia do Sertanejo. Na ocasião, foram apresentados como representantes de uma geração que procura recuperar o canto duetado e o acompanhamento tradicional da viola.

Preservar não significa congelar

A presença desses artistas mostra que tradição e renovação não são ideias necessariamente opostas. A música caipira sempre se modificou quando encontrou novas tecnologias, instrumentos e espaços de circulação.

Cornélio Pires transformou cantos comunitários em discos comerciais. Raul Torres levou a moda de viola ao rádio, incorporou ritmos nordestinos, gravou sambas e aproximou o sertanejo da guarânia paraguaia. Tião Carreiro desenvolveria, décadas depois, uma linguagem própria de pagode de viola. Outros músicos levariam o instrumento à MPB, ao repertório de concerto e à música instrumental.

O mesmo processo ocorre no presente. Parte da nova geração procura reproduzir com fidelidade os arranjos antigos. Outra parte cria composições próprias ou utiliza a viola em músicas que não nasceram no universo rural. Nos dois casos, a continuidade depende de conhecimento: é necessário ouvir os mestres, compreender as afinações, estudar os ritmos, reconhecer os compositores e dar crédito às obras interpretadas.

Também são fundamentais os festivais, concursos, orquestras, escolas, programas de rádio e televisão, acervos digitais e políticas de patrimônio. Sem esses espaços, muitos repertórios permanecem restritos às redes sociais e podem desaparecer com a mesma rapidez com que ganham visibilidade.

Um som que continua contando o Brasil

Aos 120 anos do nascimento de Raul Torres, sua história permanece ligada a uma transformação decisiva: a passagem da música caipira dos encontros comunitários para os discos, o rádio e o mercado profissional.

Essa passagem não apagou completamente a origem do gênero. A viola continuou presente nas festas, nas celebrações religiosas, nos encontros de famílias e nas rodas realizadas longe dos grandes centros. Ao mesmo tempo, tornou-se instrumento de palco, estúdio, televisão, universidade e concerto.

O Dia Nacional da Música e Viola Caipira reconhece justamente essa amplitude. A data não homenageia apenas um instrumento ou um estilo fonográfico, mas um conjunto de saberes: a construção artesanal, as afinações transmitidas entre gerações, o canto em dueto, a poesia oral, os causos, as danças, as festas e a memória das comunidades do interior.

Quando jovens como Nathan Violeiro, Lizandra e Victória, Os Altaneiros, Kalebe e Gabriel, Kauã Viola e Ricardo Amaro, Zé Caboclo e Caboclinho e muitos outros sobem ao palco ou publicam uma nova gravação, eles não estão apenas repetindo o passado. Cada um, à sua maneira, participa da continuidade de uma tradição que sempre encontrou formas de se transformar.

A viola que acompanhou Cornélio Pires, Raul Torres, Serrinha, Florêncio e João Pacífico permanece viva porque continua passando de mão em mão. Seu som guarda a memória de quem veio antes, mas também anuncia que a história da música caipira brasileira ainda está longe de terminar.

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